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  • COMPETIÇÃO X ANSIEDADE

    24/10/2004 - Kátia Alves Fernandes

    Competição X Ansiedade

    Kátia Alves Fernandes

    Resumo: o presente artigo tem como proposta discutir os efeitos da ansiedade e do estresse em atletas diante das competições e o emprego de técnicas específicas para controlar esses efeitos. Tornando assim o ambiente esportivo mais reforçador, gerando um desempenho cada vez maior. Tal discussão tomará como fundamentação teórica os pressupostos do eixo comportamental.

    Unitermos: ansiedade esportiva, estresse, competição, psicologia do esporte.


    Este artigo é o produto da prática de estágio realizada em uma equipe de base do futsal do clube Atlético Mineiro.
    A ansiedade é um fator que está muito presente nas competições e em muitos casos o atleta não conseguindo lidar com ela pode cometer alguns erros prejudicando sua performance. O esporte competitivo é conseqüência do tempo atual, baseado na luta pela superação intensiva e incessante. A verdade é que o aumento da ansiedade no momento esportivo, reflete o aumento de pressão que se exerce, cada vez mais intensa e acentuada, sobre os jogadores, equipes e dirigentes com o objetivo único de ganhar.
    A reportagem “Ansiedade dos craques” (ISTOÉ, 1998) aponta que a ansiedade acima de certo nível diminui o raciocínio, a capacidade de decisão, os músculos perdem o controle do cérebro, levando os jogadores a darem passes errados, chutarem com o corpo desequilibrado e se tornarem violentos.
    Suzy Fleury (1998) relata que o time de vôlei masculino do Brasil quando disputava as olimpíadas de 1992, começou a dar sinais de ansiedade, cada jogador queria decidir o jogo sozinho. Começaram os erros, deixaram com que o adversário passasse na frente, quando o técnico e os jogadores reservas começaram a gritar o time reagiu melhorando a defesa e o saque.
    A ansiedade em níveis cada vez mais altos acaba gerando níveis de estresse que prejudica o atleta. Contudo, essa temática da ansiedade esportiva e do estresse são fatores muito importantes e presentes no esporte, mas no entanto muitos atletas acabam prejudicados por não saber controlá-los. Hoje em dia o controle emocional pode ser decisivo nas competições devido ao alto nível de qualidade dos atletas.
    Na prática de estágio foi visível um momento de grande ansiedade e estresse dos atletas. Diante de resultados não favoráveis o técnico juntamente com a comissão técnica passou para a equipe a falta de confiança deles para com a mesma, falando claramente que não sabiam jogar. Os atletas ficavam apreensivos, nervosos e agitados diante das competições e isso com certeza prejudicou no rendimento da equipe que não conseguiu alcançar os objetivos propostos.
    O excesso de ansiedade interfere negativamente no desempenho de atletas por várias razões. A exposição a ameaças causa mudanças fisiológicas que preparam o indivíduo para lidar com elas. Uma dessas mudanças é o estreitamento da consciência e, dessa maneira o atleta fica menos sensível a estímulos externos, o que pode causar uma queda em seu desempenho global. O excesso de ansiedade causa um aumento de adrenalina, que pode fazer com que o atleta se apresse em executar ações que requerem atenção e cuidado.
    Diante disto, levanta-se a questão: como controlar ansiedade e prevenir o estresse competitivo? A ansiedade solapa o intelecto, e os ansiosos têm mais probabilidade de errar. A maior parte dos atletas sente a pressão das competições entrando em estados de tensão, preocupação ou ansiedade. O importante é identificar essa situação e procurar técnicas para reverter o processo.
    “A análise do comportamento aplicada ao esporte traz, então, sua metodologia experimental utilizando-a na mensuração dos comportamentos de praticantes, técnicos e atletas e suas respectivas variáveis controladoras. Baseada na filosofia behaviorista, essa abordagem não se limita apenas à descrição dos comportamentos, seus antecedentes e conseqüentes. Grande parte dos esforços de seus aplicadores visa melhorar a qualidade dos desempenhos esportivos, da interação entre envolvidos, tornando assim a prática física e esportiva mais atraente, ou melhor, mais reforçadora.” (CILLO, 2000: 90)

    De acordo Spielberger , citado por Singer (1997), a ansiedade é considerada uma emoção típica do fenômeno estresse. O mesmo autor (1997) considera o estresse como um complexo processo psicobiológico que consiste de três grandes elementos: estressores, percepções ou avaliações de perigo(ameaça) e reações emocionais (ansiedade de estado). Para ele, estressor refere-se a situação e circunstâncias que são caracterizadas por algum nível de perigo físico ou psicológico objetivo. Ameaça diz respeito a uma percepção ou avaliação individual de uma situação como potencialmente perigosa ou prejudicial. Ansiedade como um estado emocional (ansiedade de estado), consiste de sentimentos de tensão, apreensão, nervosismo, preocupação e ativação elevada do sistema nervoso autônomo vivenciados subjetiva e conscientemente.
    Para Weinberg e Gould (2001) a ansiedade é um estado emocional negativo caracterizado por nervosismo, preocupação e apreensão associado com ativação ou agitação do corpo. Portanto a ansiedade tem um componente de pensamento (preocupação e apreensão) chamado de ansiedade cognitiva. Ela tem também um componente de ansiedade somática, que é o grau de ativação física percebida.
    Os mesmos autores consideram a ansiedade-estado como um estado emocional temporário, em constante variação, com sentimentos de apreensão e tensão conscientemente percebidos, associados com ativação do sistema nervoso autônomo. A ansiedade de traço é uma tendência comportamental de perceber como ameaçadoras circunstâncias que objetivamente não são perigosas e de responder a elas com ansiedade-estado desproporcional.
    Para medir estados de ansiedade, os psicólogos usam medidas de auto-relato tanto globais quanto multidimensionais. Nas medidas globais as pessoas avaliam o quanto se sentem nervosas, usando escalas de auto-relato de baixo a alto. As medida de auto-relato multidimensionais são usadas quase da mesma maneira, mas as pessoas avaliam o quanto se sentem preocupadas (estado de ansiedade cognitiva) e fisiologicamente ativadas, mais uma vez usando escalas de auto-relato variando de baixo a alto.
    Para Samulski (1996), no esporte existe uma variedade de estressores internos e externos, que podem desestabilizar física e psiquicamente o atleta, antes e durante a competição. Então teremos como estressores externos a hiper-estimulação através de barulho, luz, dor, situações de perigo; e estressores internos como estímulos que induzem a necessidades primárias (alimentação, água, dormir, temperatura, clima); estressores da performance (super-exigência, sub-exigência, falha, crítica, censura, elevada responsabilidade) e estressores sociais (isolamento social, conflitos pessoais, mudança de hábito, morte de parente).
    O esporte competitivo é um evento causador de estresse, com o atleta desempenhando suas habilidades em níveis muito altos e sob circunstâncias nas quais há um oponente tentando dificultar a ação, ambos sempre perseguindo a performance. O estresse é vivenciado numa competição quando o atleta percebe que não pode enfrentar com sucesso as situações que se apresentam, antecipando conseqüências negativas.
    Na prática do estágio depois que a comissão técnica disse para os atletas que eles não sabiam jogar, que eles eram os piores dos piores, a equipe ficou com níveis altos de ansiedade e estresse até terminar a primeira fase do campeonato. Os atletas o tempo todo ficavam preocupados com a falta de confiança da comissão com eles, ficavam apreensivos ao saber dos adversários, antecipavam conseqüências negativas preferindo tomar menos gols possíveis, ou seja , entravam para o jogo achando que iam perder e queriam perder de pouco. Foi possível observar um excesso de estressores de performance, ou seja, uma super exigência por parte da comissão para com os atletas, falhas, críticas , censura e uma elevada responsabilidade jogada em cima dos mesmos.
    O ser humano cronicamente estressado apresenta cansaço mental, dificuldade de concentração, perda de memória imediata, apatia e indiferença emocional. Sua produtividade sofre queda. Começam a surgir autodúvidas devido à percepção do desempenho insatisfatório, seguidas de crise de ansiedade e humor depressivo.
    Segundo Lipp (2001), não há mais dúvidas de que o estresse excessivo pode levar ao adoecimento, à redução da qualidade de vida e a um decréscimo na sensação de bem estar e felicidade.
    É evidente que o esporte é parte integrante e atuante da sociedade moderna e constitui um fenômeno social que interfere em nosso cotidiano de maneira explícita. Desta forma a adoção de técnicas que podem controlar a ansiedade e o estresse poderá contribuir para um maior rendimento dos atletas, um maior desenvolvimento pessoal e social, e consequentemente, uma melhor qualidade vida.
    Para Martin (2001) as emoções têm três características importantes: a reação fisiológica que a pessoa sente internamente durante a experiência de uma emoção (e que é acompanhada, tipicamente, por sinais visíveis como caretas ou sorrisos), que é influenciada pelo condicionamento respondente; a forma como a pessoa aprende a expressar publicamente uma emoção (tal como gritar, pular, etc.), que é influenciada pelo condicionamento operante; e a maneira que a pessoa se conscientiza sobre suas emoções e as descreve, que também é influenciada pelo condicionamento operante.
    A ansiedade é o rótulo dado à experiência emocional que as pessoas tem ao encontrar eventos perigosos que podem levar a sentir dor. Finalmente a retirada de eventos aversivos ou punitivos causa uma emoção de alívio.
    Teoricamente é muito importante para o atleta encontrar um clima tranqüilo no ambiente de treinamento, tanto entre os atletas quanto entre os atletas e a comissão técnica, pois a equipe precisa de apoio principalmente nas horas difíceis e isso é confirmado na prática, pois se essa situação de confiança não ocorre a equipe ficará consequentemente desestruturada. Um acontecimento observado na prática foi que primeiro o técnico se desentendeu com os atletas, depois com a própria comissão técnica. Ficava um falando do outro até mesmo com os pais dos atletas. A falta de estrutura refletiu no rendimento dos atletas que não sabiam com quem podiam contar; o próprio técnico ficou perdido com tudo isso sem saber o que fazer. No último jogo da primeira fase o técnico estava expulso e ficou conversando durante o jogo de costas para a quadra, alguns pais se revoltaram, os atletas nesse jogo estavam apáticos praticamente sem atitude .
    Na prática de estágio, antes de começar a segunda fase do campeonato a comissão técnica conseguiu reverter o clima que haviam causado anteriormente, e a sensação que percebemos nos atletas foi de alívio, como se eles estivessem mais leves, mais calmos e com um clima de amizade reinando novamente.
    O excesso de ansiedade e estresse interfere no desempenho esportivo porque causa uma mudança na concentração da atenção, um atleta nervoso tem menor probabilidade de perceber deixas importantes. Esse excesso consome energia ao processar todas as mudanças fisiológicas. O consumo extra pode ser problemático em atividades de resistência. O aumento de adrenalina fará com que o atleta se precipite durante uma rotina que domina bem. O excesso de nervosismo acrescenta estímulos adicionais ao ambiente competitivo que, provavelmente, não estavam presentes no ambiente de treinamento, o que interfere com a generalização de estímulos de uma habilidade, do treino para a competição.
    As estratégias citadas por Martin (2001) para lidar com o excesso de ansiedade podem minimizar as causas ou mudar as reações do corpo diante de eventos estressantes . Para minimizar as causas ele apresenta duas estratégias: saber reconhecer e modificar o pensamento negativo e estruturar o ambiente para se desligar e dar deixas de pensamentos relaxantes.
    É preciso reconhecer e modificar o pensamento negativo. Um primeiro passo para um atleta controlar o excesso de ansiedade é reconhecer e modificar os pensamentos negativos que fazem com que fique tenso. Uma forma de reduzir o estresse causado pelos pensamentos negativos a respeito de um evento é chamada de reavaliação cognitiva_ modificar a maneira de encarar esse evento. O atleta poderia reavaliar a situação pensando: Eu fiz esta jogada centenas de vezes, treinei bastante, etc.
    Estruturar o ambiente para “se desligar” e dar deixas de pensamentos relaxantes. Nos esportes eventos causadores de ansiedade realmente ocorrem. Embora se possa encorajar os atletas a não pensar sobre essas possibilidades logo antes ou durante uma competição, isso pode ser bastante difícil. Às vezes, uma estratégia eficiente é ajudar o atleta a estruturar o ambiente para “se desligar” e dar deixas de pensamentos relaxantes.
    Os eventos estressantes são vivenciados, os estressores existem e os atletas não conseguem ignorá-los. As técnicas para modificar as reações corporais aos eventos estressantes são: respiração controlada, manter o senso de humor e ter um relaxamento muscular progressivo.
    Uma forma eficaz de combater níveis moderados de ansiedade é praticar a respiração central profunda- um procedimento das artes marciais que enfatiza o controle de pensamento, uma determinada maneira de respirar e o relaxamento muscular.
    Com freqüência um time que brinca e está relaxado antes de um jogo é um time que tem probabilidade de jogar bem. Se os atletas puderem ser encorajados a manter o senso de humor e brincar uns com os outros antes de uma disputa, provavelmente sentirão menos tensão. Atletas relaxados geralmente têm um desempenho melhor do que os que estão tensos. Porém atletas que têm um escesso de relamento podem não atingir o desempenho esperado. Relaxar é uma técnica eficiente, mas não ser nos extremos, ou seja, nem muito relaxados, nem pouco relaxados, deve-se tentar manter uma média, um equilíbrio.
    Na prática de estágio isso não acontecia, pelo contrário, minutos antes do jogo os atletas ficavam tensos, sem atitude, alguns com uma expressão de desespero no rosto, um clima completamente frio e tenso, mas em um jogo da segunda fase, os atletas conseguiram “se desligarem” dando deixas de pensamentos relaxantes e o senso de humor prevaleceu. O time estava cantarolando, uns brincando com os outros e até mesmo com o técnico e isso foi de fundamental importância pois aumentou a auto confiança a união da equipe e o resultado foi o melhor possível. Conseguiram ganhar com um resultado bem positivo. O técnico conseguiu dar espaço para que isso acontecesse, passou a dar as instruções fora do vestiário. Os atletas deram um show tanto de garra, força de vontade, união quanto de técnica e tática. O nível de erro foi o mínimo. E esse clima prevaleceu até terminar a segunda fase, eles conseguiram ganhar todos os jogos seguintes.
    O relaxamento muscular progressivo envolve a contração e o relaxamento, alternadamente, de vários grupos musculares, prestando muita atenção às sensações sentidas quando estão tensos versus quando estão relaxados. O atleta será capaz de relaxar, então, na maioria das situações, em questão de minutos. Alternativamente, podem ouvir a gravação num walkman e praticar os exercícios logo antes de competir, para ficar mais a vontade. O ideal seria que alguém que tivesse uma voz baixa, suave e tranqüila gravasse as instruções de relaxamento.
    A literatura encontrada, Martin (2001) e Weinberg e Gould (2001) se liga diretamente com o que foi observado na prática. As teorias sobre ansiedade, estresse e controle dos mesmos, prova que a literatura pesquisada realmente está em consonância com a prática observada. A ansiedade e o estresse são fatores presentes no esporte e em níveis elevados atrapalha o rendimento esperado, porém a ansiedade e o estresse pode ser eficazmente tratados por meio de intervenções comportamentais. A posição comportamental associada à Psicologia do esporte, possibilita entender, explicar, predizer e influenciar comportamentos e por fim realizar trabalhos no sentido de ajudar atletas a terem um maior rendimento na competição de forma saudável, reforçadora.
    O controle da ansiedade e do estresse através de técnicas específicas realmente se faz necessário, para que o atleta consiga atingir seus objetivos de forma saudável, pois são fatores que se não forem controlados podem fazer com que uma equipe com um potencial alto para ganhar competições não os realize devido ao alto números de erros provocados pelo excesso de ansiedade e estresse.
    A realização dessa prática foi muito importante, pois as variáveis que causam um baixo rendimento nos atletas e que foram relatadas pela literatura puderam ser observadas na prática. E no entanto a mudança dessas situações, ou seja, a retirada dessas variáveis fez com que o rendimento aumentasse provando assim que a literatura está em consonância com a prática.

    Referências

    ANSIEDADE dos craques. ISTOÉ. São Paulo, 27 de maio de 1998. Disponível em < http://www.zaz.com.br/istoe/comport/14528.htm> Acesso em 12 de Setembro de 2003.

    CILLO, Eduardo Neves p. de. Análise do comportamento aplicada ao esporte e à atividade física: a contribuição do behaviorismo radical. In:_____ RUBIO, Kátia. Psicologia do Esporte: interfaces, pesquisa e intervenção. São Paulo: Casa do Psicólogo Livraria e Editora LTDA, 2000, Caps. VI,VII,VIII. P.87-124.

    FLEURY, Suzy. Competência Emocional: o caminho da vitória para equipes de futebol. 3ª ed. São Paulo: Editora Gente, 1998, Cap. IV. p.75-118.

    LIPP, Marilda E. Novaes. O stress emocional e seu tratamento.In: RANGÉ, Bernard. Psicoterapia cognitivo-comportamentais: um diálogo com a psiquiatria. Porto Alegre: Artemed editora, 2001, Cap.XXVIII. p. 475-496.

    MARTIN, Garry L. Consultoria em Psicologia do Esporte: orientações práticas em análise do comportamento. Cap IV 2001

    SAMULSKI, Dietmar, CHAGAS, Mauro H., NITSCH, Jürgen R. . Stress: Teorias Básicas. Belo Horizonte: Editora gráfica Costa e Cupertino LTDA, 1996, Cap. III e IV P.91-105

    SINGER, Robert N. Personalidade dos atletas.In:____Psicologia dos Esportes: mitos e verdades. 2ª ed. São Paulo: Harper e Row do Brasil, 1997, Cap. V. p. 95-99.

    WEINBERG, R. S. e GOULD, D. Fundamentos da psicologia do esporte e do exercício. Maria Cristina Monteiro (tradução). Porto Alegre: Artmed, 2001 Cap.


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